segunda-feira, 16 de junho de 2008

Vinte quatro Horas Finais

Propus aos meus alunos de Ensino Médio que escrevessem um texto que narrassem as vinte quatro horas finais de suas vidas, partindo de um inicial parágrafo proposto (em azul). Tinha com objetivo verificar se os conceitos do texto narrativo foram aprendidos e mostrar que em momentos difíceis somos capazes das maiores proezas. Abaixo segue oo texto (em verde) de Brunah Modesto aluna do 2º Ano III da Escola de Ensino Médio Dr. Ruben Roberto Schmidlin.
Vinte e Quatro Horas Finais
Mais um dia de aula e de trabalho e cá estou em casa esperando o final de semana para poder curtir adoidado (a). Não quero dormir porque ainda não me sinto cansado (a). Só um leve desespero por não ter o que fazer, mas tudo bem. Ligo a televisão para assistir o programa do Jô ou na esperança ridícula de ver alguma coisa que realmente preste. Só telejornais. Não dou muita bola. Afinal para que me interessa a economia e a política, nada me ajudará e tudo continuará como está. Paro em um telejornal qualquer e tento prestar atenção e para minha surpresa descubro que o mundo tem apenas 24 horas. Fico atônito e mudo de canal para entender esta coisa toda e descubro a verdade: só tenho 24 horas. Parece até ridículo, meu Deus, e agora?”
O que fazer? Tenho só vinte e quatro horas? Estou desesperada, meu coração acelerou, minhas mãos começaram a suar, não consigo mais pensar em nada, acordar minha família ou esperar amanhecer? Não... Acho que devo acordar se não eles terão menos tempo de vida... Ah!... Já não sei mais nada! Meu Deus me ajude! Preciso de sabedoria agora, devo-me desesperar-me ou curtir o tempo que ainda resta? O tempo está correndo contra mim, ele não espera, não posso mais perder nenhum segundo. Devo me acalmar, pois o desespero não leva a lugar algum.
É chegada às três horas da madrugada e eu nada fiz, abro a janela e vejo as pessoas correndo, minha vizinha saindo de carro, acho que irão viajar, vão para a Enseada ficar com a família. Fico olhando o luar tão belo, não pode ser que o mundo irá acabar?
Muitas dúvidas surgem: será que a vida é uma criação da nossa mente? Temos uma missão aqui? Qual? Por quê? Neste tempo em que vivi, não aproveitei como queria. Eram tantos sonhos, esperanças e agora eles acabam por aqui?
Queria aprender a andar de skate, era fascinda por Down Hill e até tentei comprar uma Crossda Mônaco para praticar, sonhava em acampar no Monte Crista, em Corupá e também no Jurapê. Tive a oportunidade e rejeitei. Que arrependimento! Pensei muitas vezes em começar fazer aulas de bateria ou guitarra. Até falava para meus amigos que ia montar uma banda de rock. Não pode acabar assim. Não! Não! Não pode!... Ah... Mas vai! Não conclui tudo que sonhava, acabei esquecendo que de uma forma ou de outra possuía um tempo determinado aqui neste mundo chamado Terra. Que nada aqui é eterno. Comparo a vida com um despertador programado para um horário e quando ele desperta é chegada a hora de partir. Bom... acho que se eu ficar pensando muito nisso acabo pirando, é muito mistério a ser desvendado. Difícil de compreender.
Meu, vinte e quatro horas, apenas vinte e quatro horas. Existem pessoas morrendo antes. Era a hora delas partir? É fácil para alguns fazerem tudo o que sempre desejaram neste tempo que resta e esquecem o que pode ocorrer depois que tudo aqui findar, mesmo assim creio que nós somos imortais, mesmos que “morramos” aqui na terra. Deve ter outro lugar reservado, uma nova vida... Será...? Será...?
Malditas dúvida! Fico olhando para esse lindo céu, já amanheceu, chegou o último dia, a nuvens em formas de bichinhos, essa brisa suave envolvendo-me, pardais cantarolando, o beija-flor se alimentando do néctar da margarida, nunca tinha prestado atenção, é algo incrível, pois esta é a vida.
E eu cá sentada sobre o piso da casa, com a porta aberta, refletindo nesse grande mistério chamado vida, nesse jogo em qual eu estou incluída. Será que nesses dezesseis anos fiz tudo o que devia? Hum... Houve erros, falhas, mas também acertos e queria poder expressar tudo o que eu penso. Sinto, mas faltam palavras, coragem e há um terrível medo.
Minha família linda, todos estão sabendo da notícia e que trágico! Agora estão na sala da minha casa reunidos e orando ao nosso Deus pedindo perdão pelas falhas do dia-a-dia e o agradecendo por tudo. Afinal Ele merece, criou tudo tão perfeito! Finalmente vi minha família tão unida, tanto amor, como nunca tinha visto antes, bom se fosse antes assim? Ouço choros, gemidos, abraços, beijos, enquanto eu estou aqui analisando os fatos.
Acabo de avistar o Augusto e ele está com seu inseparável Skate e também com seus amigos. Eu sempre o critiquei chamando-o de “Maconheirinho”, o que será que ele vai fazer nessas horas que ainda resta? Tomara que ele me aviste, preciso muito falar para ele tudo o que eu sempre quis e nunca consegui por deixar o nervosismo e o orgulho ter tomado conta de mim e como sempre, me enrolar com as palavras. Agora há uma oportunidade e vou me sentir mais aliviada, confortada sem esse peso. Pronto, está resolvido: vou tomar a iniciativa!
­– Ei, Augusto, venha cá um momentinho, fazendo favor. Bem... eu... é... – Não posso deixar o nervosismo, meu inimigo, bater! – Bom... como eu ia dizendo, quero que saiba que foi maravilhoso poder conhecer você, neste momento quero que saiba que estou pisando no meu orgulho, só para lhe dizer que eu amei você, amar não é fácil, mas o mais difícil é esquecer que todo o amor que eu tinha dei para você, agora é tarde pra voltar atrás e eu sei que tudo pode acontecer, mas também sei que o meu amor por você, não vai morrer assim. Onde quer que eu esteja, sempre lembrarei de você. Os beijos que você me deu estão guardados. Todas as lembranças estão aqui dentro em meu coração. Você será inesquecível, não precisa dizer nada, só em dê um abraço de despedida. Nesse momento em que nós nos abraçamos parecia que o tempo tinha congelado, esqueci de tudo, lágrimas rolaram, senti algo mágico sobre nós. Tudo foi sincero, meigo, lindo, algo realmente extraordinário, porque não fiz isto antes!?
O Augusto foi embora, não me pergunte pra onde, pois não sei, porém o que fiz valeu a pena, finalmente fiz o que sempre desejei. O tempo está acabando, vejo pessoas se suicidando e se chocando em carros. Coisas absurdas que eu nunca pensava presenciar: meninos saindo com três garotas ou mais. “Esses têm fogo”. Pessoas assaltando padarias, levando tudo o que sempre quiseram comer. Vejo até pessoas fazendo misturas muitas estranhas – morango com maionese, salsicha com leite condensado. – “Eca que coisa ruim”! A Paloma batendo na Beth por causa do Flávio, que nesse momento está ficando com outra, até o meu amigo que considero um irmão – o José – está fumando um “beck” e misturando com Amarula, não acredito o “Zé”. Alguns jovens do Pitaguaras estão espancando os policiais que fizeram uma geral neles em uma noite de farra. Estou atônita com os acontecimentos, pessoas desperdiçando seu tempo com bobagens – o que será que elas pensam sobre a vida.
Uma coisa aprendi: existe um tempo para cada coisa e existe um tempo para todas as coisas e o tempo para todas as coisas está se finalizando.
No cronômetro de meu celular marca 23h59, então começo a falar com Deus – “Obrigada pelo dom mais lindo que o senhor me concedeu que é a vida. Desculpe-me pelos erros, mas é normal, somos carnes. Apesar dos problemas, adversidades, foi intenso e muito bom cada segundinho que vivi. Quero que saiba que AMO intensamente e sem comparação”. Só ficou a lembrança dos gritos de desespero das pessoas e o meu olhar fixo no céu.